99 anos de título basilical: rumo ao centenário

Valioso ícone da devoção mariana  no coração da Amazônia, a Basílica Santuário de Nazaré completa, no dia 19 de julho, 99 anos de título basilical

Considerado um lugar de paz e refúgio para aqueles que necessitam, a Basílica guarda a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré achada por Plácido de Souza, em meados de 1700. Diante os vários milagres atribuídos à Imagem, milhares de pessoas passam pelo templo em busca de uma maior proximidade com a Mãe de Deus e de toda a humanidade. E foi no dia 19 de julho de 1923 que um acontecimento marcaria a história de um templo dedicado a Virgem Maria e reforçaria a imponência do local sagrado: a então Paróquia de Nazaré fora concedida o título de Basílica Menor, a terceira do Brasil.

TÍTULO:

Uma Igreja recebe o título de “Basílica” por meio de uma concessão do Papa. Uma das razões é a importância espiritual e histórica para o povo da região na qual é localizada, item que a expressão de fé e a devoção dos paraenses explica muito bem, já que têm a Virgem de Nazaré como padroeira. Por isso, sentem-se intimamente ligados a ela.

Padre Paulo de Tarso Maria Rodrigues explica detalhadamente sobre outro significado da palavra Basílica e o que era antes de se tornar de fato o conceito conhecido atualmente. “Se remete a um termo utilizado no Império Romano para designar um espaço próximo a um fórum, usado para comércio e também uma espécie de tribunal. Com o cristianismo, esses espaços vão ser transformados numa Igreja Maior, uma igreja mais importante dentro de uma diocese, dentro do território de uma arquidiocese”, conta.

O Papa Pio XI foi quem concedeu tal honraria, e o Documento Papal relata:

“Existe na cidade de Belém do Pará, Brasil, a igreja paroquial erigida em honra da Virgem, sob a invocação da Bem aventurada Virgem de Nazareth, que, pela imponência da construção, pelo esplendor das obras de arte, pelo brilhantismo do culto, celebérrima, outrossim, pela frequência e devoção dos fiéis, pode com justiça e direito ser enumerada entre os principais santuários consagrados em terra brasileira, à Bem aventurada Virgem Maria. […]  nos dignemos elevar esta igreja à categoria Basílica”.

O título obtido se refere a uma Basílica Menor, e Padre Paulo conta, também, o porquê desta nomenclatura. “É uma Basílica Menor. Existem as Basílicas Maiores que são apenas quatro no mundo, as que estão em Roma ligadas diretamente ao Papa, e gozam de prestígios, de isenções e de privilégios conseguidos por ele. As Basílicas Menores, embora seja o Papa que deu o título, estão ligadas a arquidiocese”, afirma.

A igreja de longe se destaca devido à magnitude, importância religiosa e beleza arquitetônica. É um conjunto de fatores do qual quem as conhece não as esquece. Em 2023, o título completará 100 anos e uma programação especial será realizada pelos Padres Barnabitas em função desta data que é de extrema relevância para os devotos da Mãe de Nazaré.

BASÍLICA

Basílica vem do grego basilikós = casa real. Basílicas eram construções especiais com colunas e pórticos que na Grécia levavam esse nome, por estarem relacionadas ao rei (basileus). A Basílica na Pérsia era a sala de audiências do rei. Graças às suas características de cunho prático, estas salas imensas com mais de uma nave, sustentadas por pilastras, foram adotadas no Ocidente. Nas basílicas da cultura grega se reuniam os magistrados e os comerciantes. Posteriormente, na Roma antiga, vai designar o edifício amplo e de formato retangular, destinado a tribunais e local de encontro dos cidadãos. De fato, no século III a.C., a forma arquitetural da basílica grega foi introduzida em Roma. Com a liberdade de culto favorecida pelo imperador Constantino (313), e a posterior elevação do cristianismo como religião oficial (380), muitas basílicas tornaram-se templos cristãos.

Atualmente, o título é conferido pelo Papa, através de um decreto. Existem quatro grandes basílicas maiores em Roma: São Pedro, São Paulo, São João de Latrão e Santa Maria Maior. Todas as outras basílicas são chamadas menores.

ARQUITETURA

            É notória a admiração dos que visitam a Basílica Santuário de Nazaré pela primeira vez. No olhar daqueles que a visitam diariamente, é possível perceber a mesma contemplação. Esse deslumbre é comum para os filhos e filhas de Maria, o que não é tão comum assim é o conhecimento desses fiéis a respeito da construção deste magnifico templo.

São duas as figuras que se destacam na edificação do templo, ambas são Padres Barnabitas: Luiz Maria Zoja e Afonso Maria Di Giorgio. Cada um desses sacerdotes contribuiu de maneira direta com a obra e voltaram todas as suas energias para que a casa da Mãe de Nazaré fosse erguida.

Padre Giovanni Maria Incampo relata, com emoção, como surgiu a vontade de fazer uma igreja digna a Rainha da Amazônia: “Padre Zoja, quando perguntado que tipo de igreja queria, respondeu “eu sou Barnabita, Clérigo Regular de São Paulo, que é nosso padroeiro! Gostaria que tivesse, mais ou menos, o estilo daquela Igreja, quase uma transferência de uma igreja patrona dos Barnabitas para o Brasil”, recorda Padre Giovanni. De fato, em Roma existe a grande Basílica de São Paulo Fora dos Muros da qual padre Zoja teve como modelo para a construção.

Em continuidade ao relato, o sacerdote demonstra admiração em relação a como o andamento da construção foi rápida. “É incrível como a ideia foi se concretizando! Em 1905 Padre Zoja visitou Belém, planejou, discutiu, começou a fazer os desenhos e em 1909 já colocou a primeira pedra! Ele foi a impulsão da construção, contagiou os padres de lá e os daqui. Ele foi a força que determinou todo mundo a se mexer para pensar nessa Basílica assim”, fala com entusiasmo.

Não houve duvidas que Nossa Senhora de Nazaré esteve presente nessa condução. Apenas quatro anos depois, já se iniciava a construção. Essa ascensão da estrutura durou até 1920. Agora só restava a questão de como seria adornada e “então entra o Padre Afonso. Assim começou a história de ornamentação da Basílica, que custou mais tempo e, ao mesmo tempo, mais paciência, do que fazer uma construção puramente mural, puramente de engenharia. Agora era fazer a arte italiana entrar na Basílica de Nazaré. Onde fazer? Quem fazer? Onde buscar? Esse era o desafio”, diz Padre Giovanni.

Eram essas as perguntas que Padre Afonso tinha que responder quando assumiu o cargo de diretor das obras de construção da Basílica de Nazaré. O sacerdote então estudou com dedicação a estrutura e as possibilidades, consultou arquitetos e decidiu que cobriria a igreja com os mais belos mármores e artes preciosas, mesmo que tivesse de enfrentar qualquer tipo de adversidade. “Em 1920, não tinha toda essa força comunicativa que possuímos agora, aí nós vemos que a genialidade do Padre Afonso foi dúplice: primeiro que ele alcançou de Zoja e dos padres da Itália, que eles planejassem lá todo enfeite da Basílica. O material já vinha da Itália sob medida, tudo numerado para que, quando chegasse aqui, fosse montado de acordo”. O segundo, conta Padre Giovanni, vinha da habilidade de convencimento do padre Afonso que induzia as pessoas a se comprometerem a finalizar a obra: “franzino, mas tinha uma coragem de ir de porta em porta cobrando em nome de Nossa Senhora de Nazaré, assim distribuía as várias partes da basílica a cada um dos que podia”.

DESCRIÇÃO:

As linhas arquitetônicas da Basílica Santuário de Nazaré apresentam o estilo romano, bem como a decoração interna e externa. O frontão triangular apresenta grande painel feito em mosaicos, onde a imagem de Nossa Senhora de Nazaré aparece no meio do cenário amazônico, sendo notável, no canto direito, as figuras do fundador da cidade e personalidades de eras antigas, junto às do prefeito e do governador da época da inauguração, em trajes modernos (paletó).

Na bacia do Ábside, limitada por um arco romano, temos uma faixa em mosaico de ouro de um metro de altura, onde aparecem, entre folhas e flores, sete brasões: Pio XI (no centro), Brasil, Pará, Belém, Barnabitas (PTA), Dom Santino Coutinho (1º Bispo do Pará) e Dom Irineu Jofily.

A Basílica Santuário de Nazaré tem 62 metros de comprimento, 24 de largura e 20 de altura; duas torres com 42 metros de altura, 36 colunas de puro granito maciço, 54 vitrais, 38 medalhões em mosaico de 1,5 metro de diâmetro, 19 estátuas de mármores de carrara, dois candelabros de bronze (vindos de Milão), 24 lampadários venezianos, nove sinos eletrônicos, um órgão (com três teclados e 1.100 tubos) e 11 altares. Em 1992, a Basílica foi colocada entre as mais belas construções tombadas pelo Patrimônio Histórico do Pará.

 

Fotos e texto: Karol Coelho – Ascom Basílica Santuário de Nazaré