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A DEUS O QUE É DE DEUS – Por Dom Alberto Taveira Corrêa

A Arquidiocese de Belém vive um Círio diferente e original. Não foi menor do que os Círios anteriores, mas tem sido realizado de um modo novo, no qual fica mais claro ainda que “o povo faz o Círio”. Se de um lado a Arquidiocese e a Diretoria do Círio seguiram em estrita obediência os protocolos estabelecidos pelas autoridades municipais e estaduais, assim como pelo Ministério Público, fomos todos conduzidos a verificar que as normas devem passar pelo crivo do bom senso e pela percepção do que misteriosamente o Espírito Santo realiza, conduzindo os devotos de Nossa Senhora de Nazaré. Se as autoridades devem ser reconhecidas, e o foram pela Igreja, é bom saber que, mais do que dar a “César o que é de César”, há que “dar a Deus o que é de Deus”, como estabelece o Evangelho proclamado na Igreja neste final de semana (Mt 22,15-21). Existe no Povo de Deus um misterioso e verdadeiro sentido ou senso da fé, e é importante reconhecê-lo. Ninguém tem direito de abafar manifestações autênticas e respeitosas da fé.

“O Povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade oferecendo a Deus o sacrifício de louvor, fruto dos lábios que confessam o Seu nome (Cf. Hb 13,15). A totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (Cf. 1Jo 2, 20 e 27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando este, desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis, manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes. Com este sentido da fé, que se desperta e sustenta pela ação do Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob a direção do sagrado magistério que fielmente acata, já não recebe simples palavra de homens mas a verdadeira palavra de Deus (Cf. 1 Ts 2,13), adere indefectivelmente à fé uma vez confiada aos santos (Cf. Jd 3), penetra-a mais profundamente com juízo acertado e aplica-a mais totalmente na vida” (Constituição Dogmática Lumen Gentium 12). A afirmação do Concílio Vaticano II vale para o conjunto da fé, na certeza de que o Espírito Santo acompanha e conduz a Igreja, mas pode ajudar-nos a aprofundar muitas práticas religiosas, como aquela que vivemos no Círio de Nazaré.

Ilumina nossa reflexão o Documento da Comissão Teológica Internacional a respeito do senso ou sentido da fé, presente e atuante no Povo de Deus (O “sensus fidei” na vida da igreja – Comissão Teológica Internacional), do qual trazemos ensinamentos preciosos, para iluminar o que vivemos neste Círio de Nazaré. O sentido da fé dos fiéis é semelhante a uma reação natural, imediata e espontânea, comparável a um instinto vital ou uma espécie de “faro”, pelo qual a pessoa de fé adere espontaneamente ao que está conforme a verdade da fé e evita o que se opõe (Cf. Número 54).

Dentre as manifestações do sentido da fé nos fiéis, a Comissão Teológica Internacional (Número 60 do Documento) inclui “identificar e colocar em prática o testemunho a dar de Jesus Cristo no contexto histórico e cultural particular em que ele vive”, Depois, para nosso consolo e alegria, refere-se à piedade ou religiosidade popular, com a grande variedade de manifestações da fé cristã encontrada no seio do povo de Deus na Igreja, a “sabedoria católica do povo”, que se expressa de muitas maneiras diferentes, sabedoria que faz estar juntos, de forma criativa, o divino e o humano, Cristo e Maria, o espírito e o corpo, comunhão e instituição, pessoa e comunidade, fé e pátria, a inteligência e o sentimento, e  é também, para o povo, um princípio de discernimento, um instinto evangélico pelo qual capta espontaneamente quando se serve na Igreja o Evangelho e quando ele é esvaziado e asfixiado com outros interesses”. Como sabedoria, princípio e instinto, a religiosidade popular tem, obviamente, uma ligação estreita com o senso da fé (Número 108 do Documento).

As palavras de Jesus, “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25; Lc 10,21), são de grande pertinência neste contexto. Elas apontam para a sabedoria e intuição para as coisas de Deus que são dadas para aqueles que têm uma fé humilde. Grandes multidões de cristãos humildes e as pessoas que estão além das fronteiras visíveis da Igreja têm, pelo menos potencialmente, um acesso privilegiado às verdades profundas de Deus. A religiosidade popular provém, em particular, do conhecimento de Deus concedido a eles. “São a manifestação de uma vida teologal animada pela ação do Espírito Santo, que foi derramado em nossos corações (Rm 5,5)”. Ao mesmo tempo como um princípio ou instinto e como uma rica diversidade de práticas cristãs, especialmente na forma de atividades de culto, como as devoções, peregrinações e procissões, a religiosidade popular provém do sentido da fé e a manifesta. Ela deve ser respeitada e promovida. É necessário reconhecer que a piedade popular, em particular, é a primeira e fundamental forma de inculturação da fé. Tal piedade é uma realidade eclesial suscitada e guiada pelo Espírito Santo, pelo qual o povo de Deus recebe na verdade a unção de um sacerdócio santo. É natural que o sacerdócio do povo se exprima em uma variedade de formas (Cf. Números 109 e 110).

Pode-se dizer que a religiosidade popular está bem orientada quando ela é verdadeiramente eclesial. No mesmo texto, São Paulo VI indicava alguns critérios de eclesialidade. Ser eclesial significa alimentar-se da Palavra de Deus, não se enredar com polarizações políticas das ideologias, manter-se firmemente em comunhão tanto com a Igreja local quanto com a Igreja universal, com os pastores da Igreja e com o Magistério, e ter um grande ardor missionário. O Papa Francisco destaca “a força missionária” da piedade popular, e ele afirma, o que pode ser visto como uma referência ao sentido da fé, que “na piedade popular” se encontra “uma força ativamente evangelizadora, que não pode ser subestimada: seria ignorar a obra do Espírito Santo” (Número 112 do Documento da Comissão Teológica Internacional)

E assim, podemos perguntar-nos sobre o que é de Deus! É de Deus a piedade de nosso povo, que fez o Círio! É de Deus a oração e a devoção a Nossa Senhora de Nazaré. É de Deus o seu direito de sair às ruas, e inclusive de manifestar sua inquietação pelo fato de tantas aglomerações de outra ordem, sociais, comerciais ou políticas, acontecerem em torno à Igreja. É de Deus o respeito aos muitos promesseiros, que testemunharam o legítimo desejo de manifestar sua devoção. É de Deus nossa esperança de que possamos proximamente celebrar o Círio da forma costumeira, sabendo que o nosso “novo normal” será um Círio maior, mais piedoso e mais alegre.

Se repetimos tantas vezes “Ave Maria, cheia de graça”, temos a certeza de que, sob o manto de Nossa Senhora de Nazaré, esta graça nos será concedida.

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