DIVINA AVENTURA – Por Dom Alberto Taveira Corra

Sabemos que Deus é sempre novo, com as inspirações que suscita em sua Igreja, conduzindo-a a passos corajosos na aventura da Evangelização. Cada tempo, cada sucessor de Pedro, cada colégio episcopal, os padres, diáconos, consagrados, povo de Deus. Tudo se renova no correr do tempo, e, entretanto, permanece a fidelidade ao Senhor, que prometeu e realmente se faz presente na Igreja, até a consumação dos séculos. Assim, desde a convocação de São João Paulo II à Nova Evangelização, passando pelo pontificado de Bento XVI e até a verdadeira ventania de ação do Espírito que tem sido o pontificado do Papa Francisco, somos chamados a uma revisão constante, contínua e corajosa dos métodos de ação pastoral e provocados a estar como Igreja em saída, abertos mais ainda à missão, diante de um mundo que tem sede de Deus, ainda que muitas vezes nem entendamos bem seus apelos. Cabe-nos uma atitude atenta de escuta e discernimento!

Temos um ponto de referência desafiador, a proposta de Jesus expressa no Sermão relatado por São Mateus, chamado da Montanha, como em São Lucas, pronunciado na Planície (Mt 5-7; Lc 6, 1-49), para que nossa vida seja uma magnífica e divina aventura. O Evangelho de São Lucas apresenta dois quadros, as bem-aventuranças e as maldições. Trata-se de fazer opções corajosas, que comprometem toda a vida humana. Ressoa a palavra do livro do Deuteronômio (Dt 30, 15-20): “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que hoje te prescrevo, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar para possuí-la. Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, se te deixares arrastar para adorar e prestar culto a outros deuses, eu vos declaro hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo sobre a terra onde ides entrar, depois de atravessar o rio Jordão, para ocupá-la. Cito hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição.  Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele”.

Deus nos criou para o bem, para a bem-aventurança, a felicidade. Entretanto, e só ele podia ter a coragem de fazer assim, recebemos o magnífico e desafiador dom da liberdade. A proposta está feita e deveremos escolher seu seguimento, se desejamos realmente a plenitude da vida!

Quando a Igreja nos abre novas perspectivas de Evangelização, aparece o desafio de nos desacomodarmos, saindo de nossas mesmices, buscando novas formas de vida e de trabalho. Cada cristão, homem ou mulher, é chamado a uma revisão corajosa de suas escolhas e modo de vida. Também os Bispos, Sacerdotes e demais pessoas consagradas haverão de confrontar sua vida e suas práticas, para que se dirijam com mais genuinidade e vitalidade às novas gerações. Não nos é permitido apenas repetir as mesmas respostas e as mesmas práticas de organização pastoral. Pensemos em nossas Paróquias! Não podem ser escritórios de serviço público, ou organizações que repetem os mesmos métodos de trabalho! Haverão de sair em missão, descobrindo novas formas para alcançar as pessoas de nosso tempo com a força do Evangelho, com marcação “cerrada”, indo ao encontro das pessoas.

Para darmos tais passos, é necessário retomar o Evangelho – Palavra sempre nova! – e hoje desejamos confrontar-nos justamente com os valores apresentados nas Bem-aventuranças (Lc 6, 17-26). A primeira delas olha para os pobres, aos quais pertence o Reino de Deus. Não é possível entrar no Reino sem dois gestos, voltar-se para os pobres e tornar-se pobre, libertando-se de todos os apegos. Haveremos de voltar juntos os nossos olhos para os preferidos de Deus, os mais pobres e excluídos. Este é o sentido das escolhas missionárias que temos feito em nossa Igreja de Belém, olhando mais longe e com mais profundidade, envolvendo os que mais sofrem. E edifica-nos o fato de que um número crescente de Paróquias mais organizadas, das áreas centrais, se abra para a partilha e o envolvimento com as comunidades de nossas desafiadoras periferias. E o apelo é feito a todos, padres, diáconos, religiosos, religiosas, pessoas consagradas e todo o laicato, para que cada um e todos juntos descubramos o nosso modo de despojamento e Missionariedade.

Nas bem-aventuranças, consta o choro! Não se trata de lamentações, mas o anseio pela chegada do Reino de Deus, além da certeza de que corações abertos e sensíveis olham ao seu redor e descobrem o que há de ser feito pelo próximo, sem voltar os olhos para outro lado! É tempo de maior abertura às situações gritantes da sociedade. E quem tem acesso às várias instâncias de poder, busque os meios a fim de que o clamor e o choro sensibilizem os que possuem recursos e força política para decisões.

Impressiona o fato de Jesus considerar felizes os que são perseguidos, injuriados e caluniados! E é verdade que hoje e sempre quem faz a escolha do Evangelho como norma de vida encontra oposições, mas ao mesmo tempo experimenta a alegria profunda de ter escolhido o caminho certo. Os mártires de todos os tempos entregaram sua vida com coragem, disposição e alegria, torturados, vilipendiados e mortos pelo nome de seu Senhor, certos das opções feitas. E somos de novo chamados a escolher juntos caminhos novos, em espírito sinodal, “nadando contra a correnteza”, diante do mistério do mal, sempre presente na história.

Deus nos preserve da segunda parte do Sermão de Jesus, os “ais” da riqueza e da fartura injustas, do riso e da gozação de uma vida cheia apenas de luxo, elogios e apupos, que não correspondem ao seguimento de Jesus!

Fortalece-nos na caminhada a palavra profética transmitida pelo profeta Jeremias (Jr 7, 5-8), para que nossa vida seja frutuosa em benefícios ao Reino de Deus: “Assim diz o Senhor: ‘Maldito o homem que confia no ser humano, que na carne busca a sua força e afasta do Senhor seu coração! Será como um arbusto no deserto, nunca vê chegar a chuva mora na secura do deserto, terra salobra, inabitável. Bendito aquele que confia no Senhor, o Senhor mesmo será sua segurança. Ele será como árvore plantada à beira d’água, que deita raízes rumo ao rio, nem vê chegar o tempo do calor. Suas folhas estão sempre verdejantes, nem se preocupa com um ano de seca, e nunca deixa de produzir o seu fruto”.

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