QUARENTENA – por Dom Alberto Taveira Corrêa

Muitos de nós lembramos como era exigente o tempo de resguardo das mulheres após o parto. Quarenta dias com o adequado repouso, alimentação especial, a verdadeira cerimônia do primeiro banho da criança, os cueiros utilizados, o umbigo a ser destinado a um lugar especial para ser enterrado, e daí por diante. É claro que os cuidados com o parto mudaram com o tempo, a ciência ajudou muito, mas o nascimento de uma criança continua resguardado com atenção e carinho. Depois, a escolha do nome, o Batismo, a festa! E nossas populações interioranas ainda nos ensinam tanto! Que dizer dos povos indígenas e originárias, cuja presença é ou deveria ser mais valorizada!

Entretanto, há outras situações em que os povos de hoje tiveram que aprender o que significa quarentena! Quarenta, quatorze, dez ou tantos dias, a pandemia ensinou as pessoas a se resguardarem. Querendo ou não, temos sido obrigados a ficar dentro de casa e tomar todos os cuidados diante de um bichinho invisível e perigoso que está assustando toda a humanidade! Todos acabam percebendo que restrições de passos ou de alimentos têm valor para a vida humana. Usar máscaras, lavar as mãos, o álcool em gel, evitar aglomerações! Quanto tempo vai durar esta quarentena global, isso não sabemos! E ainda existem pessoas resistindo às vacinas descobertas e que são a única saída disponível da parte da ciência!

A sabedoria bíblica e a vida da Igreja já tinham descoberto há muito tempo o que pode significar e ajudar uma quarentena. Quarenta anos simbólicos no deserto, Moisés no Monte para receber a Lei de Deus e passa duas vezes quarenta dias diante de Deus, profetas que caminham quarenta dias. E a tradição litúrgica da Igreja dedica os quarenta dias que precedem a Páscoa a esta quarentena, que chamamos de Quaresma. Não é um tempo estranho ou misterioso, mas tempo forte e especial da graça de Deus, a ser aproveitado, sabendo todos nós os frutos que podem advir.

Nossa Arquidiocese propõe o que chamamos “Retiro Popular Quaresmal”, neste ano com o título “Tempo da Graça”. Todos sabemos o quanto o ano de 2020 foi desafiador para a humanidade. Alguns o consideram “ano perdido”, o que não é verdade, pois tudo coopera para o bem dos que amam a Deus, como ensina o Apóstolo São Paulo. Todos os dias, as alegrias e os sofrimentos, as esperanças e as angústias do ano passado podem ser acrescentadas na conta do plano infinito de amor do próprio Deus. Para dar sentido ao que pudemos passar, há que colocar na frente o amor de Deus (Cf. Rm 8,28). Aí, tudo fica diferente! Bíblia nas mãos, roteiro do Retiro Popular e vamos adiante, para viver a mais santa de todas as Quaresmas!

E o ano de 2021 poderá ser melhor ainda, com Quaresma, Páscoa, Festas dos Santos, Círio de Nazaré, tudo o que quisermos se o amor de Deus e o amor a Deus vierem na frente de tudo. Não se trata apenas de calendário, mas de oportunidade que a graça de Deus nos dá, para sairmos de nós mesmos, olhar ao redor, interessar-nos pelo bem dos outros, superar o fechamento, as calúnias, o egoísmo que se espalha, vencermos o medo que se espalha em algumas redes sociais, como se estivéssemos no fim do mundo! Sim, o mundo vai durar enquanto Deus quiser, um dia ou milhões de anos, “pois para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pd 3,8). Ninguém perca o sono por causa de ameaças de uma nova ordem mundial, pois Deus é o Senhor da história e esta não é a primeira nem a última das crises, epidemias, pandemias ou guerras causadas pelas forças da natureza ou pelos atos humanos, tantas vezes pela força do pecado e a ação do maligno.

Algumas ações devem acompanhar nossa Quaresma. Aproveitemos as eventuais restrições alimentares, por dietas ou limite de recursos, para transformar em jejum da boca. Podemos fazer um belo jejum de televisão, aliás carregada de cenas deprimentes e vergonhosas, como algumas que geraram protestos nos últimos dias. Jejum do ouvido pode ser fechá-lo para as fofocas e intrigas, os ciúmes e as invejas. O jejum da despensa de nossa casa pode acontecer com a prática da caridade, repartindo o pouco ou o muito do alimento que temos. Jejum do coração será a prática do perdão e a cura dos ressentimentos guardados há tanto tempo. Os lábios, o rosto e os olhos poderão fazer jejum sorrindo mais, superando a cara fechada. Certamente teremos aprendido, com o uso das máscaras, a sorrir com os olhos! E estes olhos podem ver e valorizar o bem! Nossos passos também podem fazer jejum. Na medida do possível, a atenção aos doentes, com os cuidados prescritos pelas autoridades. Há muitos profissionais de saúde que o fazem em nosso nome! E nossos telefones celulares são convidados a fazer penitência! Evitar sites inconvenientes, ligar para as pessoas com elogios e reconhecimento do bem que é feito, não espalhar notícias falsas, coisa que tem feito tanto mal!

E a oração? Quaresma é tempo de Sacramento da Penitência, vivido com boa preparação e propósito de vida nova! Quaresma é tempo de Via-Sacra, que pode ser feita em família, com o texto proposto no Retiro Popular. Quaresma é tempo de participação na Santa Missa, valorizando o caminho que a Igreja nos propõe especialmente na liturgia dominical. Além disso, nossa Arquidiocese oferece a transmissão diária da Missa pela TV Nazaré, além das redes sociais que transmitem Missas das Paróquias, pois há restrições para muitos irem às Paróquias. Mas a Igreja entra em cada casa. E Quaresma é tempo de rezar o Rosário, valorizando esta prática em família!

Enfim, Quaresma é Tempo de Campanha da Fraternidade, neste ano realizada de forma ecumênica, com o tema do diálogo: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14) “Fraternidade e Diálogo: Compromisso de amor”, tema que posteriormente desenvolveremos para a necessária compreensão do alcance da mesma Campanha.

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