Ritos Barnabíticos: A cruz – parte 03

Texto retirado do livro “Ritos Barnabiticos”, escrito pelo Padre Miguel Maria Facero, traduzido por Padre João Maria Carlos Colombo – 1965.

A META

O CORTEJO chega à igreja, mas o candidato que carrega a cruz entra na frente de todos. Robustecido na alma e pronto para tudo o que der e vier, prostra-se em adoração diante de Jesus. A cruz, que antes lhe pesava nos ombros, ergue-se agora ante seus olhos. Afigura-se-lhe ter perdido todo o peso: dulce lignum, dulce pondus.

E se agora, face a face com Jesus, é preciso falar-lhe, e quando se fala com Jesus é sempre para dirigir-lhe uma oração: Domine Iesu Christe. Aqui, porém, é uma prece que fecha uma procissão e abre um caminho novo para a alma, que, depois daquele curto descanso, deve retomar a sua cruz e carrega-la in longitudine dierum até a ultima estação, que lhe dará repouso para sempre.

Por isso, invoca-se Jesus, que é “o Caminho sem o Qual ninguém chega ao Pai”. O caminho é estreito, mas leva à Voda; é Via Crucis que leva direto ao Calvário, onde, porém, demora-se por poucas horas; depois muda de direção e aspecto, volta-se para o alto, rapidíssimo e luminoso de glória, vai ao Pai.

O caminho do religioso é este, e não pode ser outro: já o dissemos. Ai de quem se desviar desse caminho! Enlameia-se, pode escorregar, cair num barranco. Impõem-se todo cuidado e toda cautela a quem anda nesse caminho e também a isso nos referimos: se há espinhos que ferem, há também rosas que perfumam.

Ó delicioso perfume das palavras de Jesus que ordenam amor e prometem o Paraíso! E se grandis restat via, não falta o pão que fortalece, a água que mata a sede, o vinho que inebria, porquanto Jesus, que se proclamou caminho, definiu-se também Pão; e ainda disse: “se alguém tiver sede venha a Mim”.

Sendo Jesus o Caminho, que lhe vamos pedir? Ut hunc famulum tuum per iter disciplinae regularis deducas! A regra é ela também um caminho? Sim, é o caminho, onde Jesus está mais ao alcance da mão, onde o Evangelho torna-se mais especifico, onde temos maior garantia de estarmos na verdade e na orientação mais precisa. A regra esclarece, adapta, aperfeiçoa. Vem no cabeçalho dela um Decreto do Vigário de Cristo que nos garante o valor, sanciona as prescrições e impõe a observância. Portanto caminho infalível.

A historia da Ordem, por sua vez, prova com os fatos como ela foi eficaz produtora de perfeição evangélica e de santidade. É o caminho seguro.

Por isso, quem pediu servir na Ordem dos Barnabitas para a glória de Deus e a salvação de sua alma pode abandonar-se com cega – embora quão iluminada – confiança à observância da regra que lhe estabelece o horário e o comportamento, prescreve-lhe a oração, assim como a hora das refeições; ensina-lhe a falar e lhe impõem o silencio; veste-o com um habito e lhe ministra, com ambundancia do pão cotidiano; dá-lhe os instrumentos do trabalho, os livros para o estudo, enquanto a vela com todo cuidado pela sua saúde, pelo seu repouso, pois todas essas coisas são a defesa de quem anda no caminho, são os estímulos e os confortos que lhe garantem a meta.

Não admiraria, no entanto, particularmente nos primeiros dias, nos quais o fervor é sem duvida tão vivo quão recente é a recordação da anterior vida secular, não admiraria, digo, ver o noviço preso de certo tormento, o tormento provocado pelas rebeliões do homem velho que está para morrer e do homem novo que esta pra nascer. Surge, então, um nebuloso conhecimento da própria indignidade, que, unido a um senso de vertigem, pode ser prejudicial à perfeição almejada.

Seria a lembrança dos pecados? Ou temos de recair neles? A oração prevê isso tudo e, relembrando ter Jesus chamado os pecadores e convidado os oprimidos com a exortação: venite ad me, suplica-O faça ouvir mais forte a sua voz, para que o pecador, depondo o peso de suas misérias, saboreie a doçura da sua bondade infinita e mereça ser fortalecido pela sua Graça.

Não há senão ela para vencer esta dureza, a Graça que eleva, a Graça que santifica.

Por meio dela tornamo-nos cordeiros do aprisco de Cristo, cordeiros que, bem conhecendo a voz do Pastor, distinguem-na  de qualquer outra, seguem-na sempre dócil e fielmente.

É esse o ultimo pedido da oração a Jesus, uma visão de terno amor, onde se dissipa aquela outra visão na qual tollat crucem suam parecia dureza e peso insuportável.

E de fato é assim. A moral evangélica tão rígida e tão exigente que manda arrancar um olho e cortar a mão, que requer a renuncia a si próprio e o desapego de tudo o que não é o Cristo, que impõem uma cruz, essa moral evangélica, uma vez aceita com generosidade w vivida com ardor, perde toda a aspereza, e torna-se como que uma segunda natureza da bossa vida, quer dizer, passa a ser o nosso gosto e transforma-se mesmo numa necessidade.

Diríamos que a cruz se cober de rosas, e faz sentir toda a sua brandura e o perfume com mil outras suavidades: Iugum suave, onus leve.

OREMOS:

Ó Senhor Jesus cristo, que sois o caminho sem o qual ninguém pode chegar ao Pai, suplicamos a vossa clemência, que conduza esse vosso servo, longe das afeições mundanas pelo caminho da disciplina regular; e Vós que vos dignastes chamar os pecadores dizendo: vinde a mim Vós todos que sofreis e estais cansados porque eu vos aliviarei, concedei que essa voz, que imita a vossa, nele se robusteça, de tal modo quem, despojando-se do peso do pecado e experimentando quão suave sois Vós, mereça o vosso conforto; e como Vos dignastes afirmar acerca das vossas ovelhas, reconhecei-o como uma delas, para que, por sua vez, Vos reconheça, e outros não siga afora Vós, não escute outra voz, senão a Vossa que diz: Quem Me serve, siga-Me. Ó Vós que viveis e reinais, Deus por todos os séculos.

Com a oração a Jesus a cerimonia terminou. Volta o ritmo costumeiro de cada dia. Somente o noviço parece perguntar: e agora o que devo fazer?

Uma só coisa: carregar a cruz. Tens um Superior que manda, obedece-lhe. Tens irmãos com os quais deves conviver, ama-os. Tens uma regra, observa-a. Tens um oficio a cumprir na igreja, na cozinha, no estudo, na porta da casa, na horta, cumpre-o com fidelidade diligente.

A cruz que levaste agora voltou a ser pendurada na parede, porque é cruz de… madeira. Mas, se bem percebeste, outra imprimiu-se na tua carne, e assim também na tua vida: na tua mente que só buscará o dever; na tua vontade que só terá proposito de bem; no teu coração que terá uma única paixão: o amor de Deus; no teu próprio corpo feito vitima de imolação cotidiana que se curva sob qualquer trabalho, que se submete a toda exigência do espirito e se aniquila na mais purificante mortificação para criar-se de novo uma virgindade de formas que promete uma juventude perene.

E é o inicio dos esponsais místicos com o cristo Crucificado qu7e dá tanta liberdade à obediência, tanta fartura à pobreza, tanta fecundidade ao amor e faz germinar no vale de lagrimas flores do céu, frutos da vida eterna, dando a todas as lagrimas que são derramadas gaudio de paraíso.

Quam dilecta habitatio tua, Domine! Beatus homo qui confidit in te! Amen, Amen!

Faça a sua doação

Para a modernização dos equipamentos de transmisão da SANTA MISSA