Irmãos, vocês bem sabem que todo crescimento ou ruína espiritual das Congregações depende da boa ou má formação e instrução dos Noviços. Por isso, queremos e mandamos que vocês instruam os Noviços de todos os lugares, num só local e sob a direção de um único Mestre. Que ele seja, também, o principal responsável.

Vocês dirão: “Por que isso?” Respondo: Fazemos assim, porque, se os diferentes discípulos forem educados por Mestres diferentes, irão por diferentes e variados caminhos de Virtude; sendo assim, instruídos de modo diferente, não poderão conviver bem e, talvez um desprezasse o outro, porque segue seu caminho e, daí, facilmente  nasceriam dissensões e divisões.

Queremos que seja assim, também porque são pouquíssimos e raríssimos os dotados de tal perfeição, que possam conduzir outros à mais alta e total perfeição. Portanto, se o Mestre precisar de ajuda, permitimos-lhe que (conforme sua necessidade e oportunidade de tempo) escolha um ou dois companheiros subalternos, de acordo com a sua vontade.

Mas, para que tal Mestre possa formar bem os noviços, escolham um que tenha as seguintes condições: que ele seja de uma vida íntegra e irrepreensível, que esteja cheio de discrição prática, que seja bom conhecedor dos enganos e das batalhas diabólicas, que saiba investigar, de modo autêntico e sutil, as caraterísticas dos vícios e das virtudes, que seja santo em tudo, que tenha grande capacidade natural.

Certamente, tal Mestre fará discípulos semelhantes a ele. Não pensem que poderá instruir na paciência os seus discípulos, se ele for escravo da ira; nem induzirá os outros à humildade, se ele for, de algum modo, desejoso de glória; nem ensinará a sobriedade ou o valor do silêncio ou outras virtudes, se  ele não as possui. De fato, como vocês podem admitir que alguém possa agir acima de suas forças? Portanto, se acontecer que vocês vejam um bom discípulo sair de um Mestre mau, digam a este Mestre que ele não tem razão para gloriar-se da perfeição discípulos, pois não foi a sua capacidade que cooperou para a devoção do discípulos, mas a força do Espírito Santo.

Portanto, o Mestre dotado daquela perfeição que foi descrita, formará os discípulos nos sete pontos que aqui vamos descrever:

PRIMEIRO: Além do que já foi dito e ainda diremos a respeito dos três votos e de outras coisas, – ensine aos Noviços a dominarem as suas vontades, de tal modo que fiquem tristes quando tiverem de agir a seu modo e fiquem alegres e se sintam honrados tendo que fazer como os outros querem, desde que tais coisas não sejam expressamente más.

Ensine-lhes, ainda, a sempre agradar aos outros – mesmo que contra sua vontade –  e a não fazer questão, em tudo e por tudo, do seu modo de ver, não exigindo o direito de dizer, nem tendo a ousadia de falar assim: “Quero desse jeito, não quero daquela maneira”, mas digam: “Quero o que vocês querem; não quero o que vocês não querem”. Convença os Noviços a pedirem a Deus a graça de querer vencer as suas vontades. E, perseverando nesta oração, Ele cumprirá perfeitamente neles, o que pedirem, desde que façam tudo para se tornarem de acordo com o seu pedido.

Ensine-lhes a abraçar de tal forma o “Lírio da Castidade”, que se acusem de adultério espiritual, caso descubram que puseram seu amor, de qualquer modo que seja, em coisas, em parentes, ou também no amor próprio, porque Deus é ciumento e proíbe todo e qualquer outro amor que não seja o seu.

Ensine-lhes a amar ardentemente e com tal força a Pobreza, que nunca digam a respeito de qualquer coisa: “Essa coisa é minha” e mais, fujam de qualquer atitude de apropriação, até de coisas insignificantes; dessa forma, amem a pobreza de tal forma que desejem que lhes faltem até as coisas mais necessárias, sabendo que, sob o pretexto da necessidade, os braços do supérfluo, muitas vezes, aumentam demais. Isso porque, do mesmo modo que a natureza contenta-se com pouco, da mesma forma a avidez é insaciável até tendo muita abundância supérflua.

Ensine, ainda, aos Noviços a se deleitarem na Oração e no exercício mental da Meditação, como já falamos antes (cf. Capítulo 10) e lhes assegure de que não farão nenhum progresso se não sentirem um grande prazer nessa forma de Oração. Pois, como alguém poderá arrancar e desenraizar todos os outros afetos, se a oração não impregnar o coração de afetos?

Ensine-lhes a não criar na hora da Oração, nenhuma imaginação  fantasiosa e  a não deixar a  oração, mesmo  que não sintam consolação. E mais: quando vier a consolação, recusem-na, julgando-se indignos.

Recomende-lhes que cuidem mais do sentido do que da letra dos Salmos.

Ensinem-lhes a orarem com fervor, porque o demônio costuma emporcalhar as orações sonolentas, tal como fazem as moscas com a comida fria, razão pela qual tais orações cheiram mal diante de Deus.

Cuidem para se manterem sempre na presença de Deus durante as viagens e em qualquer lugar, ou fazendo qualquer outra coisa, procurando limpar qualquer mancha de suas mentes.

Recomendo-lhes que perseverem sempre, mesmo quando não são ouvidos prontamente, pois saibam que os perseverantes e os importunos conseguem tudo, enquanto os relaxados e os frios na Oração têm certeza de que não serão atendidos. E, deste modo, leve os Noviços ao conhecimento de Deus e à familiaridade com Ele.

Informe-os e os faça compreender que a humildade, mãe e guardiã de todas as virtudes, nunca encontrará estabilidade no coração deles, se não tiverem aceito, após longo tempo, com grande esforço e com profundo desejo, todas as perseguições, desprezo e humilhações, porque, quem procurar evitar as injúrias e sofrimentos, certamente permanecerá na tibieza. Por isso, lembrem-se de que não haverá humildade sem injúrias e desprezo e que os que se envergonham dessas situações, ou também dos irmãos pobres, ou das roupas e das casas simples, percam as esperanças de conseguir a Perfeição, enquanto permanecer neles um tal sentimento de vexame. Querem fugir do vexame? Procurem-no e o “apertem com cordas e com os próprios braços”, que ele desaparecerá de suas vidas, porque vocês venceram e receberam os louros dessa vitória.

SEGUNDO: Ensine aos Noviços como se confessarem, ou seja: não se confessem por costume; não contem os pecados dos outros, mesmo porque não querem carregar a penitência dos pecados que não são seus; não arranjem desculpas para os seus defeitos, pelo contrário, procurem até aumentar a sua culpa, porque esses defeitos foram a causa da morte de Cristo (cf. Cap.14)

Ensine-lhes que a simples recitação dos pecados não lhes dá o perdão dos mesmos, mas que é preciso, também, a vontade de não os cometer, junto com a intenção de corrigir-se na medida da possibilidade.

Recorde-lhes que confessem tudo de que se lembram e, ainda mais, rejeitem os defeitos antigos e, com isso, evitem os futuros.

Ensine-lhes que, tendo-se confessado, não continuem escrupulosos, mas quando o Mestre lhes disser que basta, obedeçam e acreditem em tudo e por tudo, sabendo que o fato de não deixar os escrúpulos é um ato que procede da soberba, que faz acreditar em si e não nos outros; saibam, porém, que com tais escrúpulos, vocês nunca farão progresso, e – depois de algum tempo, deixando de freiar os escrúpulos e o remorso de consciência – cometerão com licenciosidade todos os defeitos que quiserem.

Ensine-lhes, ainda que se confessem com pudor, envergonhando-se diante de Deus e dentro de si mesmos, sem se preocuparem com os sinais externos. Por isso, avise-lhes que, desejando obter o perdão de tudo evitem esconder alguns pecados por vergonha, sugerindo-lhes que quem mostrar suas feridas mortais ao médico, escondendo uma só, por causa daquela chaga apenas, morrerá.

Ensine-lhes que confessar-se é mais do que fazer o trabalho de jardineiros, que se limitam a podar e cortar os pequenos galhos e os  raminhos das árvores e sempre têm que podar e cortar. Mas, pelo contrário, se arrancarem as raízes das plantas e das árvores, acaba o trabalho da poda e, depois, ganham com pouco cansaço, os frutos da terra sem espinhos. Assim, os penitentes devem insistir no trabalho de extirpar as raízes de seus vícios, como por exemplo:  a soberba, que é a raiz de todo pecado (1Tm.6,10) só se arranca com a profunda humildade de quem tem sede de desprezo e sente fome das injúrias. Vocês arrancarão o vício da gula com aquela pobreza voluntária, que a grande custo consegue as coisas necessárias. Assim também manifesta-se de forma claríssima nos outros vícios. Por isso, quanto mais você se afastar da causa e da raiz do pecado, arrancando-as e destruindo-as, tanto menos será oprimido pelos espinhos dos pecados e terá a sua consciência menos angustiada, mas em paz (o quanto for possível nesta vida) e colherá o fruto da mente pura.

TERCEIRO: Ensine aos Noviços a abrirem todo o seu coração ao Mestre, fazendo-lhes saber que aquele que não confia no Mestre, fica marcado pela infidelidade e pela soberba. A soberba é que os leva a crer que se bastam a si mesmos e que podem reger-se sem a ajuda de ninguém. Noviços! Considerem bem o seguinte: em nenhuma outra situação vocês são mais sutilmente  enganados pelo domônio por causa da habilidade que ele tem de fechar-lhes os lábios e a boca (este demônio, por causa dos efeitos que provoca, é conhecido como demônio “fecha a boca”). E, por isso, o demônio lhes mostra algumas imperfeições dos Mestres, para que vocês não acreditam neles e não lhes contem o seu íntimo: e, como vocês são inexperiente nas batalhas espirituais, ele os engana.

Ensine-lhes ainda a não julgar ninguém, de forma alguma e por nenhum motivo, porque é Deus o único que pode fazer isso (1Cor.4,4) (cf. Cap.14). Por isso, mostre-lhes que o dever deles é considerar todas as coisas bem feitas e, caso algumas pareçam más, eles têm o dever de interpretá-las ou julgá-las bem feitas ou, pelo menos, acreditar que foram feitas com boa intenção. De outra maneira, jamais poderão chegar à simplicidade, nem esgotar a fantasia de sua mente.

Dessa forma, ensine-lhes que é seu próprio e conveniente dever não acreditar de jeito nenhum no mal (referido por quem quer que seja), mas pelo contrário, isso sim, acreditar sempre no bem. O Mestre garanta-lhes, portanto, que cumprindo o que se disse antes, bem como o que ainda se disser nesse livro, eles se tornarão simples como pombas e prudentes como serpentes (Mt.10,6).

Ensine-lhes, ainda, a abandonar o temor em tudo, em todas as coisas; temor, digo eu, que traz a dor. Que eles saibam que, todas as vezes que o Senhor quiser (queiram eles ou não), os fará cair em sofrimentos diferentes ou nas mãos do demônio, ou em outras infelicidades da alma e do corpo. Por isso considerem como supérfluo todo temor, pois para vencê-lo, eles não têm força alguma em si.

Mas, se, contudo, eles querem ou devem ter algum temor, ensine-os a temer o maior inimigo, que está no íntimo, que está “dentro deles”: por que, quem é nocivo para mim e para você, senão nós mesmos? (Cf. Sermão 6) Por isso, assegure-lhes que, enquanto eles temerem as outras coisas e não a si mesmos, considerem essa situação como um sinal irreversível de que ainda não chegaram a grande perfeição; pois, tendo um tal temor, eles pensam que podem chegar ao máximo da perfeição (o que é impossível), mas estão carregados com muitos pesos.

A respeito dessas e de outras coisas que lhes acontecem, vocês, Noviços, consultem os Mestres, se realmente desejam sair da situação de Noviços e começar a andar no caminho dos Mestres.

QUARTO: Ensine aos Noviços o conhecimento e a beleza do homem interior. E, porque o homem não vive só do pão do corpo, mas também de toda palavra que procede da boca de Deus (Mt.5,4), faça-os saber que o homem interior precisa igualmente do alimento espiritual e do alimento material. Por isso, cada um preste bem atenção, porque, quem não sentir fome deste alimento, ou melhor, quem não o procurar (nas lições da Sagrada Escritura, nas exortações, nas Conferências) com ansiedade, para o seu sustento e também não o esmiuçar para os outros, com toda certeza fará morrer de fome e de miséria a si mesmo e aos outros.

Ensine-lhes em que consiste o adorno do homem interior, para não pensarem que poderão entrar na casa do Senhor sem a veste nupcial (Mt.22,11-12): esta é a virtude no seu máximo grau.

Desse modo, ensine-lhes a conhecer a saúde e a doença, a fraqueza e a fortaleza, a perfeição e a imperfeição do homem interior, de forma que possam ver quando progridem e quando regridem.

Faça-os conhecer com Quem eles devem entreter-se e conversar interiormente. Ensine-lhes como, muitas vezes, os inimigos do homem são seus próprios familiares (Mt.10,36) e como esses falsificam e, tantas vezes, deturpam a voz de Deus.

Ensine-lhes em quais pensamentos devem enraizar-se e os ritmos e harmonias do Espírito Santo neles.

Finalmente, ensine-lhes como ficar recolhidos, tanto interiormente como exteriormente.

QUINTO: Ensine aos Noviços não só o modo de conversar, mas também o de aumentar seu fervor de noviços, fazendo-os saber que, não progredir é recuar e, ao mesmo tempo, chame a sua atenção para o seguinte: uma coisa é fervor e devoção exterior e outra é o fervor e a verdadeira devoção.

Por isso, faça com que eles saibam que, muitas vezes, Deus costuma providencialmente fazer sumir o fervor e a devoção exterior por diversas razões, como por exemplo:

  • Para que o homem conheça que o fervor não depende do seu próprio poder, mas do outro, isto é, de Deus; por isso deve humilhar-se cada vez mais;
  • para que o homem aprenda a penetrar mais em si mesmo e a procurar a sua culpa e vê-la com pesar; por causa dela, este estado de espírito se afastou deles;
  • para que o homem aprenda a compadecer-se dos outros, que talvez, exteriormente pareçam não ter esta devoção;
  • para que o homem aprenda a virtude da discrição;
  • para que o homem evite a distração e outras causas desse mal;
  • para que o homem aprenda a discernir se, no tempo de aridez, age menos do que no tempo do fervor exterior; ou melhor, se, sem esse fervor, sabe afervorar-se mais verdadeiramente no fervor divino e no aproveitamento espiritual.

Por isso, fiquem sabendo que, se alguém cai na tibieza por sentir-se privado desse fervor exterior e de desejo ardente, não se pode concluir que esse nunca tenha tido fervor verdadeiro, mas que tem um espírito inconstante.

Por isso, Noviços, fiquem sabendo que, se vocês se dedicarem à verdadeira devoção (que outra coisa não é senão a pronta vontade para fazer as coisas de Deus), se vocês atenderem a Ele e não à doçura exterior, vocês se tornarão, finalmente, tão fervorosos, que  não se limitarão às coisas da bondade de Deus. Dessa forma, as adversidades não os deixarão tristes e até os alegrarão e, nas mentes de vocês estarão tão elevados, que as coisas da terra não mais os preocuparão.

No entanto, aprendam isso durante o tempo da aridez: olhem e reparem muito bem dentro de vocês, se ainda está viva a semente da boa vontade; sendo assim, não tenham medo, nem sejam relaxados, porque lhes falta um ardente desejo exterior e a devoção, porque Deus está com vocês de um modo muito mais verdadeiro e amoroso do que com tantos outros de coração cheios de consolações.

Saibam, pois, ó noviços que é dever dos corações magnânimos querer servir sem recompensa e querer combater sem remuneração.

Por isso, fiquem certos disto: perseverando desta maneira, vocês ficarão mais abertos ao Espírito e aumentarão o verdadeiro fervor; e este estado de espírito de verdadeiro fervor pode também ser adquirido com propósitos renovados, firmes e frequentes e, mais ainda, com esforços violentos ou corporais.

SEXTO: Ensine aos Noviços a cultivarem o verdadeiro Amor e o desejo da total e completa perfeição. De que serviria a alguém ter muitas virtudes, se lhe faltasse uma? De que serviria ter todas as virtudes e não se esforçar para conseguir o máximo delas? Quem descobrir que é assim, reconheça que não quer honrar a Deus o quanto pode.

É, sem dúvida, grande vergonha para os servos de Deus dizer: “para mim, é suficiente honrar a Deus até aqui”. Cresça o quanto você pode, porque você é cada vez mais devedor!” Jamais algum Noviço e também nós, irmãos, pense ter feito muito, mesmo tendo as coisas que foram citadas acima em grau de ardente desejo: porque, quanto mais pagamos, tanto mais ficamos devedores de coisas maiores ainda.

Convém lembrar, no entanto, que não é pelo desejo de sermos superiores aos outros e sim para que nos ponhamos aos pés dos outros, que devemos desejar e procurar o mais alto grau de perfeição. Muitos caíram nas profundezas, pelo fato de não desejarem este grau de perfeição com humildade, ao mesmo tempo que desprezavam os outros, porque não andavam por este caminho. Por isso, é preciso incluir a prática da verdadeira humildade para fortalecer toda perfeição.

SÉTIMO: Ensine aos Noviços o silêncio e outros comportamentos exteriores, mas de acordo com a conveniência da Congregação, do tempo, do lugar e da oportunidade. Ensine-lhes a refletir e a considerar bem as razões pelas quais estes comportamentos são pedidos, em vez de considerá-los como um fim em si mesmos.