A oração mental é tão necessária para o nosso crescimento espiritual, que, sem dúvida, cada um de vocês pode concluir  – e isso eu digo com toda certeza – que, quem não se dedicar a ela e não se deleitar interiormente nela, jamais progredirá, mesmo que mastigasse externamente, o dia inteiro, muitos salmos e outras orações. Saibam, meus irmãos, que a oração mental é a comida, é o alimento dos que querem progredir. Por isso, se vocês não se nutrirem dela, certamente sentirão faltar-lhes as forças.

A simples oração externa, principalmente, se não conduzir à oração mental ou não participar dela, é apenas uma satisfação exterior e uma camuflagem da verdadeira oração e do verdadeiro alimento espiritual. Vocês compreenderão essa situação pelo seguinte: saindo do momento de oração, vocês continuam os mesmos de antes como, por exemplo, levianos nas conversas, negligentes no trabalho e imperfeitos em todas as coisas.

Oração

Cada um procure, portanto, embora conserve os lábios fechados, orar a Deus e, interiormente, expor-lhe seus pensamentos, do mesmo modo que um amigo faz com o outro amigo (ver Carta 3). Notem, porém, que a oração externa ou vocal foi feita para o seguinte: animados pelo prazer e pelo sentido que ela traz possamos chegar, pelo menos no fim, a aprender a oração interior.

Petição

Vocês, portanto, em suas mentes, mostrem e peçam a Deus: o de que precisam e o que querem ter em abundância; o que Ele julga ser mais útil aos amigos queridos e à Igreja do mundo inteiro.

Pedido de perdão

Para serem mais facilmente ouvidos, peçam perdão por intermédio do Sangue de Cristo e pela intercessão de todos os santos, lembrando, ainda o amor que Ele tem por todo o gênero humano.

Ação de graças

Deste modo, finalmente, vocês poderão chegar àquela situação de oração que é resultado da intenção, da devoção e da experiência. E essa situação consiste em dar sempre graças a Deus.

Quando vocês chegarem a este ponto, saibam que: foram atendidos antes de pedirem; receberam mais do que pediram, suas orações são sempre ouvidas.

Irmãos, certamente seria espantoso que alguém de vocês dissesse: “Não sei orar mentalmente”. Querem aprender? Freiem a língua para evitarem falar o supérfluo ou até o necessário e, assim, vocês começarão a falar com Deus aquilo que diriam a um dos seus amigos (Carta 3).

Mas, alguém de vocês pode dizer: “Não sinto prazer quando começo minha oração mental”. Eu respondo: Esforce-se por criar, na sua mente, pensamentos de compunção, como por exemplo, da Compaixão da Morte ou da Paixão de Cristo, das Dores de Nossa Senhora e sentimentos semelhantes. E, se mesmo assim, você não conseguir essa compunção, permaneça na oração e não se afaste dela nem deliberadamente, porque, mesmo que tardiamente, você receberá o que deseja, mantendo-se, porém, sempre humilde e julgando-se indigno de tal situação.

Vocês dizem ainda: “Gostaríamos de conseguir o que desejamos”. E eu respondo: “Acreditem e receberão o que estão pedindo; e coisas maiores ainda. Não parem de pedir, porque, quem desiste e para de pedir, não consegue nada do que quer”. E mais: Querem ser ouvidos?” Conformem-se aos seus pedidos (cf. cap. 13) Como seria isso? Vocês desejam a compunção? Não se deixem levar pela distração. Querem a humildade? Abracem, de boa vontade, os insultos; saboreiem as zombarias e até se deleitem nelas; alegrem-se com as coisas ruins. Querem a paciência? Desejem tribulação e penas, porque não há paciência sem tribulação e pena.

Vocês dirão: Em que se pode expandir a mente com a oração? Eu respondo:? na admirável grandeza das criaturas? na sua beleza de muitas e variadas formas? na grande providência de Deus? na doce paixão de Cristo? e em inúmeras coisas que existem e que não faltam às mentes que querem exercitar-se. Irmãos, prestem atenção, porém: se vocês querem chegar com facilidade à Oração mental, leiam coisas devotas, pensem nelas e, em suas mentes, sintam prazer em ruminar coisas boas (cf. Sermão 3).

Portanto, se vocês quiserem compreender que não poderão carregar o peso da vida religiosa sem essas quatro formas de oração e de alimento espiritual da mente, reparem, então, como falham e se enchem de defeitos os que são negligentes na Oração Mental.

Por isso, queremos e estabelecemos que, pelo menos por duas horas, entre o dia e a noite, nos dediquemos à Oração, sem nos dedicarmos a nenhuma outra boa obra nesse intervalo de tempo.

E lhes pedimos que, depois, comendo ou fazendo outras coisas, vocês estejam  sempre com a mente elevada (1Cor.10,31), fazendo alguma coisa boa interiormente. Talvez vocês digam: “Como podem, ao mesmo tempo,  a mente e a mão fazerem coisas diferentes?” Eu respondo: Querem compreender isso? Não lhes digo: olhem! Mas: toquem com a mão! Porque, quando ainda vivíamos no mundo , comendo ou trabalhando com as mãos, alguma vez a nossa mente pensava em algum negócio lucrativo, ou em algum amigo, ou em alguma vingança, ou em qualquer outra coisa. Não lhes resta, pois, agora, senão fazer por arte e esforço, o que antigamente vocês faziam por mau hábito ou por negligência.