É coisa sabida, que há, realmente, duas espécies de culpas. Uma espécie de culpas diz respeito às que estão escondidas no coração, ou seja, nos lugares secretos; eu pergunto aos que cometem esta espécie de culpas: o que lhes adianta não serem vistos exteriormente, se o Supremo Superior, ao qual nada fica escondido, vê tudo o que se passa por dentro? Estas culpas se lavam com a confissão sacramental e com a contrição interna do coração. Mas, para arrancar a sua raiz, só manifestando as mesmas para os que sabem cuidar das feridas com ferro e óleo.

Por isso, irmãos, saiba cada um de vocês, que aquele que deixar de manifestar a sua doença, por vergonha ou porque duvida muito de que os médicos sejam idôneos, ou porque espera confessar-se mais tarde, saiba que, certamente cairá naquela culpa, em outras mais graves e mais evidentes ainda.

Outro tipo de culpas é o que se comete quando alguém a vê e a ouve. Tal espécie de culpa deve ser punida, ora mais, ora menos, de acordo com as diversas circunstâncias do pecado, do lugar, do escândalo e de outras ocorrências. Mas, de forma alguma, passe pela cabeça de vocês obrigar alguém a praticar a virtude sob a ameaça de prisão ou de torturas corporais, pois a prática da virtude exige o ato voluntário do homem, enquanto o que é só aparência de virtude faz o homem tornar-se hipócrita: e isso, nós condenamos.

Logo, quem peca abertamente, acuse-se da mesma maneira e aceite a penitência; digo mais: ele mesmo a escolha para si, de tal modo que qualquer outra penitência dada pelos outros lhe pareça leve, diante daquela de que se julgou merecedor.

Entretanto, se alguém de vocês não se acusar espontaneamente, mas esconder a culpa com fingimento, dissimulação ou de qualquer outro modo, admoestem o pecador com ameaças de expulsão, que aplicarão de acordo com os nossos Estatutos.

Vocês poderão concluir que é mais conveniente para os pecadores acusados das duas espécies de culpas, confessarem publicamente seus defeitos, para que, por meio dos mais velhos, sua saúde possa ser completamente restituída com misericórdia.

Mas, reparem: os Santos Padres, algumas vezes, através de muito esforço e de prisão voluntária – em que não havia nem porta nem fechadura – curavam a doença dos que diziam sem desespero, mas com muita humildade: “A minha culpa não merece perdão”. Outros diziam: “Não somente não merecemos perdão, mas vocês deviam mandar-nos embora da assembleia”. Outros, além disso, penitenciavam-se dos pequenos defeitos mais do que muitos não fazem com os grandes; outros, enfim, julgavam-se companheiros dos demônios e dos que crucificaram o Cristo. E, com estes e com outros modos de agir, privavam-se até do que era lícito. Estes homens santos não diziam estas palavras imitando Caim (Gn.4,3) e Antíoco (1Mc.6,12), que consideravam suas culpas maiores do que a misericórdia de Deus, mas, com muita virtude diziam como São Pedro: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um homem pecador” (Lc.5,8) e como o centurião: “Senhor, eu não sou digno… (Mt.8,8). Todos estes eram justos e penitentes, porém, sentiam-se muito atingidos pela força do defeito, mas, ao mesmo tempo, eram impelidos por ele ao máximo da perfeição.

Irmãos, abracem, de bom grado e alegremente estes penitentes voluntários e os exortem no Senhor a sempre crescerem na virtude, para o proveito deles e dos outros.