A cruz – parte 02

Texto retirado do livro “Ritos Barnabiticos”, escrito pelo Padre Miguel Maria Facero, traduzido por Padre João Maria Carlos Colombo – 1965

O CAMINHO

Recebendo a cruz, o Postulante e apoia no ombro esquerdo. Forma-se, então, o cortejo em demanda da igreja. em frente, o Postulante com a cruz e atrás dele os confrades em ordem de antiguidade de profissão. Recita-se o Salmo 90.

Dir-se-ia ser esse o Salmo da consolação e da promessa.

Impor nos ombros uma cruz não é, de certo, impor uma pluma e para as pobres forças humanas a cruz é sempre o peso que esmaga e desola.

Embora a vontade seja decidida e ardente o amor da alma, o pensamento do futuro cria sem duvida uma preocupação. A via crucis termina num final luminoso, é verdade, mas o caminho é escuro e turtuoso, cheio de curvas perigosas e de inimigos sempre de atalaia, pois, se “o espirito é forte, a carne é fraca”.

É de admirar, então, que o tremor se apodere dos membros, as forças esmoreçam, as duvidas acometam, e a alma experimente momentos de incertezas e de isolamento.

Por isso, os confrades, que já conhecem por experiência as dificuldades do solo e os possíveis perigos do caminho a percorrer, unem-se para confortar o noviço, e com as palavras inspiradas do salmo dravídico garantem-lhe o poder do auxilio de Deus e a consolação das promessas do Senhor.

Ó tu que levas tua vida arrimado no auxilio do altíssimo e repousas à sombra do Todo-Poderoso, com toda razão podes dizer – o meu refugio e a minha rocha sois Vós, meu Deus; em Vós confio.

De fato, a vida do religioso decorre totalmente no abandono filial ao beneplácito de Deus. Daí a sua força, a sua garantia, a sua felicidade. O religioso que não tenha esse apoio divino não se sustenta, desorienta-se facilmente, permanece só na luta e no perigo e se arrisca a torna-se ambicionada presa do inimigo que o devorará.

Mas no contato permanente com Deus sente-se seguro.

“Não sentirás os temores da noite – continua o Salmo – nem a seta que te acomete no dia – Mal nenhum se aproximará de ti, e dor nenhuma penetrará na tua casa – Pois Ele constituiu seus anjos para a tua guarda – e eles sustentar-te-ão com suas mãos no decorrer de toda a tua vida”.

Essas as palavras que seguem os passos do noviço e lhe calam na alma como balsamo confortador. A cruz perde o peso ao termino de cada frase e a cada passo que avança para o altar.

Caminharás sobre a serpente e a víbora; esmagaras dragões e leões. Como0 se sente forte agora aquele fraco! Suspira pela hora de ser experimentado. Desejaria, até, enfrentar o inimigo. A cruz que leva aos ombros é agora uma bandeira; se é que já não se lhe afigure como um troféu de glória: et super crucis trophaeum dic triumphum nobilen.

E é tamanho o transporte da alma, sustentando aquela gloria da cruz, que desejaria dizer: Flecte ramos arbor alta, pois nenhum cedro ou álamo ergue-se mais do que aquela arvore altíssima: dobra os ramos para que eu também tão pequenino te possa alcançar e estender-me sobre ti e sobre ti morrer num anelo de amor tal comno fez um dia… Ele.

Eis, agora, que o Salmo muda o ritmo. Não é mais o poeta a cantar. E’ o próprio Deus, Suas palavras são a confirmação de tudo o que o Salmista disse e prometeu em nome do Senhor; são a resposta da alma, que, temerosa de si e duas suas forças, vai ao encontro do mistério da sua vida.

“Pois que se encostou em Mim, eu o libertarei e protegerei – Ele me invocará e eu o ouvirei – estarei com Ele na tribulação e lhe darei honra – saciá-lo-ei com a longitude dos dias e lhe mostrarei a minha salvação”.

Palavra de Deus! O Postulante guarda-a no coração como reserva preciosa para os momentos em que outras vozes falarem e caírem todos os apoios e as ilusões.

Ela será o aguilhão a estimular-lhe a marcha, quando os passos começarem a retardar e as forças vierem a faltar. Será a luz, cada vez que o sol escurecer e as estrelas se apagarem: lucerna pedibus meis verbum tuum et lumen senitae tuae.

Palavra de Deus! Portanto verdade que ilumina, promessa que consola. E continuará a vibrar com toda a sua tonalidade inconfundível também quando todas as vozes emudecerem. Mas, então, transforma-se-á em dom de gaudio, em visão de glória, e será o canto de felicidade.

 –  E eu lhe mostrarei a minha salvação.

Salmo 90: https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/salmos/90/

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