ADMIRÁVEL COMÉRCIO – Por Dom Alberto Taveira Corrêa

A Liturgia da Igreja usa expressões provocativas, destinadas a suscitar resposta e participação do Povo de Deus. Quando a Palavra Eterna de Deus se faz Carne, habitando entre nós, a Divindade não se perde e ao mesmo tempo a humanidade permanece, mistério de amor. A Eucaristia diária da Igreja expressa esta troca de dons, quando entregamos o que temos e somos, para receber o que existe de melhor e maior, a presença real do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, no acontecimento de seu Mistério Pascal de Morte e Ressurreição.

Há poucos dias celebramos a Epifania do Senhor, com a visita dos sábios do oriente, chegados para a visita ao Menino Deus. Viajavam orientados pela estrela, homens vindos de longe para adorar o recém-nascido, e neles se encontrava toda a humanidade que procura Deus. Trouxeram o que tinham, dando o ouro àquele que é Rei, a Deus o incenso e a mirra ao que um dia passaria pela morte, como todos os homens da terra. Voltaram com o dom maior da fé, podendo buscar caminhos diferentes e criativos, conduzidos agora por um sonho missionário, cheios de alegria. Distante no tempo, mas próximo no significado, um casamento realizado em Caná da Galileia nos mostra um convidado, Jesus, cujo presente, água transformada em vinho, faz a alegria da festa se perpetuar. Maravilhosa troca de dons, onde o que é humano ganha valor de eternidade.

A Festa do Batismo do Senhor, celebrada agora pela Igreja, faz parte das manifestações do Senhor, tradicionalmente unida ao dia de Reis e às Bodas de Caná. Às margens do Jordão, Jesus de Nazaré, aquele que é o próprio Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, entra na fila dos pecadores que buscavam João Batista, parecido com tantos homens simples e pobres. João Batista, ali considerado grande pela força profética recebida em missão, até encontra dificuldades para deixar que as coisas acontecessem, mas realiza o gesto que desencadeia justamente a manifestação do encontro admirável, pois o Espírito se mostra em forma de pomba e a voz do Pai proclama o amado. Do lado humano, um homem rude, palavras muitas vezes duras, águas do Rio Jordão, Jesus de Nazaré chegado no meio dos peregrinos da esperança. Do lado de Deus, troca admirável, Céu aberto, manifestação das Pessoas divinas, novo tempo que se abre, começa a vida pública de Jesus Salvador, para que a Boa Nova seja proclamada e o Reino de Deus se estabeleça. Se Jesus desceu às águas para santificá-las, ali todos ficaram sabendo que o Filho amado foi ungido com o óleo da alegria para evangelizar os pobres.

Um dia todos nós recebemos a graça de um novo nascimento, Batismo cristão entregue por Jesus à Igreja, para nascer da água e do Espírito. A iniciativa foi de Deus, e a fonte que jorra para a eternidade vem do Céu. Somos chamados à fé! Deus nos fez para a comunhão com ele, de forma que esta mesma fonte está continuamente presente em nosso interior, para que brotem de dentro rios de água viva. De nossa parte, a resposta da fé, também esta presente de Deus, mas responsabilidade pessoal a ser assumida com fidelidade. Troca admirável!

Desejamos dar os primeiros passos neste ano com alguns propósitos firmes e decididos, consequência das fontes batismais nas quais fomos acolhidos. Começamos pela solidez da fé, crescida em nossas comunidades cristãs, prontos a enfrentar todas as adversidades. Continuam no mundo os desafios que nos cercaram na terrível pandemia. A Igreja teve muitas vezes que “mudar” para nossas casas, sendo-nos dada a responsabilidade do que tantas vezes chamamos Igreja Doméstica, expressão que continua válida. Agora, quando a situação da saúde ainda não está totalmente resolvida, mas desafiadora, haveremos de responder de forma criativa, suscitando em nossas Paróquias e Comunidades formas de encontro, celebrações vivas, catequese criativa, oração pessoal e em grupos. Haja em nossas Paróquias iniciativas conduzidas pelo Espírito Santo e participadas por todos!

Não é menor o desafio da diversidade e do pluralismo de nosso tempo. A pessoa batizada tem como missão ir ao encontro dos outros, estabelecer laços, dar de presente o que tem de melhor, saber receber e valorizar os dons que o Espírito Santo foi semeando também onde nunca poderíamos pensar! Dar e receber, conhecer e valorizar quem é diferente, estabelecer canais de diálogo com todos! Troca admirável!

Maior ainda é a verdadeira provocação do tempo de adversidades no qual estamos mergulhados. Os cristãos dos primeiros séculos da Igreja pediam a graça da perseverança diante das perseguições e desejavam estar prontos ao martírio. Nossa época não é diferente. Se muitos falam de “mudança de época” e não apenas de “época de mudanças”, é necessário buscar outra vez lá em João Batista, aquele que proclamou ser necessário Jesus crescer e ele mesmo diminuir, o que perdeu a cabeça por causa da verdade, o que teve a ousadia de fazer chegar aos grandes como Herodes sua voz potente, hoje é urgente preparar-se para o martírio, nem sempre de sangue, mas também este possível! Não será fácil viver como cristãos neste ano! Não nos é lícito enganar-nos e dizer que será simples!

Se alguém pensa que tais dificuldades afastarão especialmente os mais jovens, nasce justamente o apelo ao heroísmo, à prontidão que temos visto em gente corajosa que se lança na aventura da vida cristã. Temos visto muitos deles engajando-se corajosamente na vocação de entrega radical da vida! Despontam aqui e ali casais abertos à vida, dispostos a formar os filhos na lei de Deus! Crescem muitas pastorais e movimentos de Igreja! Existem catacumbas urbanas, lembremo-nos dos mártires dos primeiros séculos e, também, de nosso tempo, cobertas não de terra ou de pedra, mas fervilhando de vida santa, como fruto do Batismo e do compromisso cristão corajoso. Sejam reconhecidas e homenageadas estas vidas admiráveis que estão agindo misteriosamente, conduzidas pelo Espírito de Deus que as ungiu, sob os véus da humildade.

Se queremos abraçar ainda outros desafios, aqui estão. São José, homem santo do silêncio, tem um ano a ele dedicado, para com ele aprendermos o trabalho silencioso e constante. Num tempo de muitas famílias esfaceladas, o Papa nos convoca a viver, justamente a partir da Festa de São José um tempo dedicado à família, colocando em prática o documento que há alguns anos entregou à Igreja sobre a alegria do amor. Como o Espírito Santo não cochila, antes disso nos inspirou o tema do Círio de Nazaré de 2021, “O Evangelho da Família na Casa de Nazaré”.

Mãos à obra, coragem, ousadia nascida do Espírito, dedicação e criatividade. Este será o nosso caminho no ano que começa! Esta deverá ser a face de nossa Igreja, construindo e reconstruindo, mesmo onde a maldade humana tenha pretendido desmoronar a obra de Deus!

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