IR AO ENCONTRO DAS OVELHAS SEM PASTOR – por Dom Alberto Taveira Corrêa

Impressiona-nos o fato de Jesus ter atenção com as pessoas em suas necessidades básicas, para chegar até à fome e sede de Deus que se encontra no mais profundo do coração humano. Da fome e sede de Deus, os que se fazem seus discípulos retornam por estradas semelhantes, dando sentido a todas as preocupações humanas, para que adquiram sentido profundo. Assim neste movimento de amor, do alto do amor da Trindade Santa até nós, e subindo de novo, para que, qual escada de Jacó, o caminho esteja sempre aberto, na comunhão que Deus oferece a toda a humanidade.

O Evangelho (Mc 6, 30-34) nos indica tal cuidado de Jesus inclusive com o descanso a que convida seus discípulos: “Vinde, a sós, para um lugar deserto, e descansai um pouco”! (Mc 6, 31). De fato, também o descanso faz parte de nossos deveres! Certamente muitos de nós deveriam se confessar do pecado de não ter descansado adequadamente, vindo como consequência a irritação e a falta de caridade, além dos prejuízos à própria saúde. E é bom ouvir o convite ao repouso em tempos de férias para tantas pessoas, enquanto outras continuam no labor diário! Em nossa região, com o verão amazônico, basta ver a quantidade de pessoas e veículos em nossos carros e meios coletivos de transporte para agradecer a Deus por este dever, que se torna um presente dele mesmo a todos!

Neste afã de conduzir toda a humanidade à plena comunhão com Deus, Jesus vê as numerosas multidões que a ele acorrem, reconhecendo que tanta gente se encontra como ovelhas sem pastor, em número muito maior do que aqueles que conseguem entrar de férias! Se a visão dos numerosos grupos em busca do lazer nos impressiona, basta alargar o horizonte, para identificar necessidades maiores do que aquelas tão justas do alimento, do trabalho ou do descanso. Trata-se da sede e fome de Deus, como o profeta Amós anunciou: “Dias hão de vir – oráculo do Senhor Deus – quando hei de mandar à terra uma fome, que não será fome de pão nem sede de água, e sim de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8, 11). São multidões que acorrem a Jesus, tantas vezes sem saber o que procuram!

Desejamos ir ao encontro de tantos que se sentem desorientados, “sem oriente”, sem rumo, e que clamam pela presença da Igreja, suplicam silenciosos ou em verdadeiros gritos pela nossa atenção e serviço evangelizador. Onde estão estas pessoas? Recentemente, chegando de barco a Belém, ao retornar de uma missão, contemplava a imensa quantidade de edifícios, vindo-me à mente e ao coração a inquietação por tudo o que acontece dentro das quatro paredes de uma casa! Pareceu-me ouvir o chamado de muitas pessoas que vivem sozinhas, ou gente que nunca mais pôde sair de casa, desde o início da pandemia. Depois, passando pelas ruas e pela aglomeração às vezes temerária em nossas feiras, percebi que se trata do mesmo povo, com o mesmo grito de socorro. E prossegui pelas margens da baía, e quantos são os ribeirinhos, viajando com o olhar e o coração pelas nossas baixadas, por tantas vielas, com gente que fica às portas das casas, jogando baralho ou dominó, outros entregues à bebida! Vi muitos jovens cujo jeito indicava logo o uso de drogas, desejando encontrá-los para oferecer guarida nas instituições da Igreja.

São ricos ou pobres, gente que mora em todos os tipos de condomínios, as ocupações existentes em nossas periferias, pessoas que se sentem anônimas ou outras às quais a Igreja já teve a graça de tocar com seu cuidado pastoral. Entendi mais ainda duas expressões e atitudes tão caras ao Papa Francisco: que sejamos uma Igreja em saída e que os pastores tenham o cheiro das ovelhas, indo ao encontro delas.

O que fazer? “Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão” (Mc 6, 34). Compaixão significa sofrer com os outros, colocar-se em sua pele, tomar sobre nossos ombros a situação das outras pessoas. “Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos com entranhas de misericórdia, com bondade, humildade, mansidão, paciência; suportai-vos uns aos outros e, se um tiver motivo de queixa contra o outro, perdoai-vos mutuamente” (Cl 3, 12-13). Trata-se de vestir-se com as roupas de Deus, as da compaixão e da misericórdia, de modo que ninguém passe em vão ao nosso lado. E aprender do Senhor o modo como encontrar-nos com os outros, no respeito profundo pelo mistério de cada um, reconhecendo com amor todas as situações humanas.

Nem todos poderão fazer tudo, mas todos nós poderemos fazer algo para ir ao encontro dos outros. Há a chamada regra de ouro, que pode responder a muitas perguntas sobre como poderemos ser uma Igreja em saída e participar do empenho de ser discípulos missionários: “Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles” (Mt 7, 12). Ir ao encontro das necessidades e apelos dos outros, partindo inclusive da nossa própria situação. Depois, tomar consciência de que nem todos têm as mesmas capacidades e forças. Ajudará muito saber identificar a vocação e as características de cada pessoa, alegrando-nos com aquilo que o outro sabe e pode realizar, sem julgamentos ou exigências pré-concebidas.

Outra regra básica para o exercício da compaixão e da misericórdia se encontra na palavra de São Paulo: “Com os fracos me fiz fraco, para ganhar os fracos. Para todos eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do evangelho eu faço tudo, para dele me tornar participante” (1 Cor 9, 22-23). Fazer-nos um com os outros, sentir com o coração das outras pessoas, não pedir mais do que alguém pode fazer ou oferecer. Há uma palavra fundamental no relacionamento com os que estão mais distantes: gradualidade! Não exigir que a outra pessoa suba a escada, mas ir ao encontro dela, para subir degrau por degrau!

Enfim, em nossa realidade, avoluma-se um desafio que a Igreja de Belém tem procurado reconhecer, enfrentar e dar novos passos. Nossa Arquidiocese cresce em extensão, com novas áreas populacionais e também cresce na verticalização. Temos encontrado boa vontade de pessoas e instituições, mas é hora de apelar para as pessoas que têm ou podem arregimentar recursos em vista da aquisição de novas áreas para a construção de igrejas. Queira o Senhor que este apelo faça muitas pessoas descerem do barco, como Jesus, e vislumbrar as possibilidades e necessidades de nossa Igreja.

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